
Burla online por email e domínios falsos: como reconhecê-las e como proteger o seu domínio e o seu email
Já ouvir falar sobre burla online? E de burla online por email através de domínios falsos criados para fins maliciosos?
“Tenho um vídeo seu pela webcam.” “A sua conta vai ser bloqueada.” “Enviei este email a mim mesmo, e ele chegou.”
Se já recebeu mensagens deste género, acredite quando lhe dizemos que não está sozinho. As burlas online por email são das mais comuns em Portugal, e quase todas recorrem a um truque muito simples: fazem-se passar por alguém em quem confia para atingir o seu propósito.
Há um ângulo que raramente é explicado: o domínio. É através do domínio (o que vem depois do @ e o que está no endereço de um site, por exemplo, www.nomedasuaempresa.pt) que os burlões imitam, falsificam ou aproveitam quando alguém se esquece de o renovar. Perceber como isto funciona é a melhor defesa, tanto para si como para o seu negócio.
Neste guia explicamos, sem jargão, como reconhecer burlas por email e domínios falsos, o que fazer se já caiu, e como proteger o seu domínio e o seu email.
1. Os tipos de burla por email, em linguagem simples
Os nomes parecem complicados, mas a ideia é sempre a mesma: enganar uma pessoa para que faça algo que não faria se soubesse a verdade.
- Phishing: um email que imita uma entidade conhecida (banco, CTT, Finanças, um serviço online) para o levar a clicar num link, abrir um ficheiro ou dar dados.
- Smishing: o mesmo, mas por SMS.
- Vishing: o mesmo, mas por chamada telefónica.
- Spoofing: falsificação do remetente. A mensagem parece vir de alguém que não a enviou.
- Extorsão (sextortion): ameaças de divulgar imagens ou vídeos, quase sempre inventadas, para exigir dinheiro.
- Burla do “falso patrão” ou da fatura: um email que parece vir de um colega, de um chefe ou de um fornecedor, a pedir um pagamento ou a alterar um IBAN.
2. “Recebi um email do meu próprio endereço”: o que se passa
Abre a caixa de entrada e vê uma mensagem enviada por si, para si. A primeira reação é pensar que a conta foi invadida. Na maioria dos casos, não foi.
O email foi concebido de forma semelhante ao correio tradicional. Num envelope, qualquer pessoa pode escrever o remetente que quiser, e o carteiro não verifica. Com o email passa-se algo parecido: o campo “De” pode ser preenchido com qualquer endereço. Isto chama-se falsificação do remetente (spoofing). Ou seja, o burlão não precisa de entrar na sua conta para fazer parecer que a mensagem veio dela.
Existem mecanismos para reduzir este problema (SPF, DKIM e DMARC, que explicamos na secção 8), mas a proteção só funciona se o domínio os tiver configurado e se quem recebe a mensagem os verificar. Por isso, ainda chegam muitas mensagens deste tipo.
O que fazer, por ordem
- Não clique em ligações, não abra anexos e não responda.
- Veja a pasta “Enviados”. Se a mensagem não está lá, é um bom sinal de que não saiu da sua conta.
- Mude a palavra-passe do email por precaução, e use uma que não repita noutros serviços.
- Ative a verificação em dois passos (um código adicional, por exemplo no telemóvel).
- Verifique as regras de reencaminhamento nas definições do email. Alguns atacantes que realmente entram numa conta criam uma regra para receber cópia de tudo.
- Verifique a atividade recente da conta, se o seu serviço mostrar os últimos acessos.
- Marque como spam ou phishing e apague.
Atenção: se também houver mensagens a sair da sua conta que você não escreveu (amigos a avisar, respostas estranhas), então a conta pode ter sido comprometida. Nesse caso, mude a palavra-passe de imediato e peça apoio ao seu fornecedor de email.
3. O email da “webcam”: porque é falso e o que fazer

Este é um dos mais assustadores. A mensagem diz, mais ou menos, que o remetente instalou um programa no seu computador, o filmou através da webcam enquanto via conteúdo para adultos e tem um vídeo. Exige um pagamento (normalmente em criptomoedas) para não o enviar aos seus contactos. Muitas vezes vem com o seu próprio endereço como remetente, para parecer que tem acesso à sua conta.
Na grande maioria dos casos, é uma burla em massa. A mesma mensagem é enviada a milhares de pessoas, com a esperança de que algumas, assustadas, paguem. Alguns sinais:
- Mostra uma palavra-passe sua. Isto assusta, mas costuma vir de fugas de dados antigas de outros serviços, que circulam na Internet. Não prova que o seu computador foi invadido.
- Prazo curto e ameaça. “Tem 48 horas.” A pressa é a arma principal do burlão.
- Pagamento em criptomoedas. Porque é difícil de rastrear e de reverter.
- Mensagem genérica. Não refere nada que só você saberia, como o seu nome completo, o seu site ou o seu local de trabalho.
- Remetente igual ao destinatário. Como vimos, é fácil de falsificar.

O que fazer
- Não pague e não responda. Responder confirma que o seu email está ativo e pode trazer mais mensagens.
- Mude a palavra-passe que aparece na mensagem, em todos os serviços onde a use, e ative a verificação em dois passos.
- Verifique se o seu email aparece em fugas de dados conhecidas, num serviço de consulta de confiança, como o Have I Been Pwned.
- Mantenha o computador atualizado e com antivírus em funcionamento.
- Guarde a mensagem (sem clicar em nada) caso queira denunciar.
Se existirem de facto imagens suas a ser usadas para o ameaçar, ou se a pessoa que o ameaça for alguém que o conhece, a situação é diferente e deve ser levada a sério: guarde as provas, não pague e contacte as autoridades (ver a secção 10). Não está sozinho e a responsabilidade é de quem ameaça.
4. Falsos emails de bancos, CTT, Finanças e transportadoras

São os mais frequentes. Costumam dizer que há um problema com a conta, um pagamento por fazer, uma encomenda retida ou um reembolso à espera. O objetivo é levá-lo a um site falso que copia o original, para lhe roubar os dados.
| Sinal de alerta | O que significa |
|---|---|
| Urgência e ameaça | “A conta será bloqueada em 24 horas.” A pressa serve para o impedir de pensar. |
| Pede dados confidenciais | Códigos, palavras-passe, PIN ou dados completos do cartão. Os bancos dizem que nunca os pedem por email ou SMS. |
| Domínio estranho | O endereço do remetente ou da ligação não é o oficial, ou tem letras trocadas ou palavras extra. |
| Saudação genérica | “Caro cliente” em vez do seu nome. Atenção: um email com o seu nome também pode ser falso. |
| Erros de língua | Frases estranhas, acentos em falta ou tradução automática. Cada vez há menos, por causa da IA, por isso não confie só neste sinal. |
| Anexo inesperado | Faturas, “documentos” ou ficheiros comprimidos que não esperava. |
| Ligação que esconde o destino | O texto diz uma coisa e a ligação aponta para outra. Passe o rato por cima, sem clicar, e veja o endereço real. |

A regra de ouro: nunca use a ligação do email. Abra o site da entidade escrevendo o endereço no browser, ou use a aplicação oficial, e veja lá se existe mesmo alguma notificação.
5. Domínios parecidos com o original
Os burlões registam domínios que se parecem com os verdadeiros, na esperança de que ninguém repare. Chama-se typosquatting. Alguns truques comuns:
- Letras trocadas ou a mais: um “m” que se torna “rn”, um “l” que se torna “i”, uma letra repetida.
- Palavras acrescentadas: “apoio”, “seguro”, “login” ou “pagamentos” junto ao nome real.
- Extensões diferentes: o mesmo nome com outro final (.com em vez de .pt, por exemplo).
- Acentos e caracteres parecidos: o .pt aceita acentos do alfabeto português, como á, ã, ç ou ê, por isso um nome com e sem acento pode ser confundido à primeira vista.

Se tem uma marca ou um negócio, registar as variantes mais óbvias do seu domínio (com e sem acentos, com erros de escrita comuns e com as extensões principais) reduz o risco de alguém as usar contra os seus clientes. Pode ver como escolher um bom nome em Como escolher o nome de domínio para o seu negócio.
6. Domínio expirado: o risco de outros o aproveitarem

Este é o risco de que menos se fala, e pode afetar qualquer empresa. Um domínio é registado por um período e tem de ser renovado. Se ninguém o renovar, o que acontece?
Segundo as regras do .PT, quando termina o prazo de um domínio .pt há um período adicional de 30 dias para renovar. Durante esse período, o domínio deixa de estar ativo na zona .pt (o site e o email deixam de funcionar) e a renovação tem um valor adicional. Se não for renovado, o domínio é removido e fica disponível para registo por qualquer pessoa.
E depois? Se outra pessoa o registar, pode:
- Receber os emails que ainda chegam a esse domínio, incluindo mensagens de recuperação de palavras-passe de serviços onde o seu email antigo estava registado.
- Pôr um site falso com o nome da sua empresa e aproveitar-se da sua reputação.
- Enviar emails em nome do seu antigo domínio aos seus clientes e fornecedores.
Como evitar
- Mantenha os dados de contacto atualizados no registo do domínio, para receber os avisos de renovação.
- Use um email de contacto que consulte, e não o do colaborador que já saiu da empresa.
- Considere a renovação por vários anos, se estiver disponível, para ter menos datas a controlar.
- Se um domínio já não for necessário, retire-o dos serviços e dos emails antes de o deixar expirar.
- Guarde a data de expiração num calendário da empresa, com avisos antecipados.
7. Como verificar um domínio suspeito
Antes de confiar num site ou num email, faça uma verificação rápida:
- Leia o endereço com atenção, letra a letra, e compare-o com o oficial.
- Escreva você o endereço no browser, em vez de usar a ligação recebida.
- Pesquise o nome da entidade no Google e compare com o endereço do site oficial.
- Consulte o WHOIS do domínio. Nos domínios .pt, o WHOIS do .PT mostra a data de registo e de expiração, o estado técnico e os dados do titular e da entidade gestora. Os dados pessoais de pessoas singulares só aparecem se o titular o autorizar, mas os das empresas são sempre divulgados. Um domínio registado há poucos dias e que diz ser um banco é um sinal de alerta.
- Não confie só no cadeado (HTTPS). Significa que a ligação é cifrada, não que o site seja de confiança. Os burlões também usam certificados.
A consulta do WHOIS serve para verificar a titularidade e as datas de um domínio. Não deve ser usada para recolher contactos de terceiros.
8. Para empresas: SPF, DKIM e DMARC
Se tem um domínio próprio e usa email com ele (por exemplo, geral@oseunegocio.pt), há três registos técnicos que ajudam os outros servidores a perceber se uma mensagem que diz vir de si é de facto sua. Pense neles como uma verificação de identidade para o seu email.

- SPF é uma lista dos servidores autorizados a enviar email em nome do seu domínio. Quem recebe vê se o servidor que enviou está na lista.
- DKIM é uma assinatura digital adicionada às mensagens que sai do seu servidor. Permite verificar que o conteúdo não foi alterado e que veio de quem diz.
- DMARC diz ao servidor de quem recebe o que fazer quando o SPF ou o DKIM falham (não fazer nada, enviar para spam ou rejeitar) e pode enviar-lhe relatórios sobre quem está a usar o seu domínio.
Estes registos configuram-se no DNS do domínio. Um exemplo, só para ilustrar o formato do DMARC numa fase inicial de observação:
v=DMARC1; p=none; rua=mailto:dmarc@oseunegocio.pt
Os valores corretos de SPF e DKIM dependem do serviço de email que usa, por isso peça-os ao seu fornecedor de email e não copie registos de exemplos. Um caminho prudente é começar o DMARC em modo de observação (p=none), analisar os relatórios e só depois passar a quarantine e, por fim, a reject.
O que isto faz e o que não faz: reduz bastante o risco de alguém enviar emails a fingir ser a sua empresa, mas não o elimina. Só ajuda quando quem recebe verifica estes registos, e não o protege de phishing feito com domínios parecidos com o seu.
Cuidados adicionais para o seu negócio
- Verificação em dois passos em todas as contas de email da empresa.
- Palavras-passe únicas e, de preferência, num gestor de palavras-passe.
- Regra de confirmação por outro canal para pagamentos e alterações de IBAN: ligue para um número que já conhece, nunca para o do email.
- Formação rápida da equipa, com exemplos reais de emails falsos.
- Site atualizado e protegido. Se usa WordPress, veja as boas práticas de gestão e plugins de segurança. Se quer perceber melhor o que o seu alojamento deve incluir, leia O que é alojamento web?
9. Já cliquei ou paguei: o que fazer

Aconteceu a qualquer pessoa. O mais importante é agir depressa e sem vergonha.

Se clicou numa ligação ou abriu um anexo
- Desligue-se da Internet (wi-fi ou cabo) se tiver aberto um anexo.
- Não introduza dados. Se já o fez, passe ao ponto seguinte.
- Mude as palavras-passe das contas afetadas, a partir de outro dispositivo, se possível, e ative a verificação em dois passos.
- Faça uma análise com o antivírus e mantenha o sistema atualizado.
Se forneceu dados bancários ou fez um pagamento
- Contacte o seu banco de imediato, pelo número que consta do cartão ou do site oficial, e peça para bloquear o cartão ou a conta. Cada hora conta.
- Peça a anulação ou a recuperação do pagamento, se for possível.
- Guarde as provas: capturas de ecrã, o email original, comprovativos e horas.
- Apresente queixa (ver secção seguinte).
Se for uma empresa
- Avise internamente de imediato quem trata de TI e de finanças.
- Isole os computadores afetados.
- Mude as credenciais de acesso ao email, ao banco e aos serviços críticos.
- Avise clientes e fornecedores se houver emails enviados em nome da empresa.
- Avalie, com apoio jurídico, se há obrigação de comunicar uma violação de dados.
10. A quem denunciar
Denunciar ajuda a travar a burla e a proteger outras pessoas. Consulte sempre os contactos atualizados nos sites oficiais:
- Polícia Judiciária: para queixas de burla, extorsão e crimes informáticos.
- CNCS (Centro Nacional de Cibersegurança): para comunicar incidentes e phishing.
- O seu banco: para qualquer situação que envolva contas ou cartões.
- A entidade imitada: muitos bancos, os CTT e outras entidades têm um endereço próprio para receber emails de phishing.
- Linha Internet Segura: se houver ameaças ligadas a imagens íntimas ou a menores.
Se o domínio usado na burla for um domínio .pt, saiba que as regras do .PT definem como abuso de DNS o uso de um domínio para malware, phishing, pharming, botnets ou spam. Quando o .PT tem conhecimento de uma situação destas, comunica-a aos responsáveis pelo domínio e, quando aplicável, à autoridade competente. O .PT pode ainda bloquear ou redirecionar domínios na sequência de uma notificação de uma autoridade competente, mas não é responsável pela utilização que é dada aos domínios. Por isso, a denúncia às autoridades é o caminho mais eficaz.
Checklist: este email é de confiança?

- Estava à espera desta mensagem?
- O endereço do remetente é exatamente o oficial?
- Cria urgência ou ameaça?
- Pede dados, códigos ou palavras-passe?
- A ligação aponta para o domínio oficial (passe o rato por cima, sem clicar)?
- O anexo é inesperado?
- Consigo confirmar por outro canal (telefone oficial, aplicação, site escrito por mim)?
- Se é de uma empresa, o IBAN ou os dados de pagamento mudaram de repente?
- A mensagem mostra uma palavra-passe minha como “prova”?
- Em caso de dúvida, não cliquei e perguntei a alguém?
Perguntas frequentes sobre Burla online
Recebi um email do meu próprio endereço. A minha conta foi invadida?
Por norma, não. O remetente de um email pode ser falsificado sem que o burlão tenha acesso à sua conta. Não clique em nada, consulte a pasta de “Enviados”, altere a palavra-passe por precaução e ative a verificação em dois passos (2FA).
Um email diz que me filmou pela webcam. É verdade?
Na grande maioria dos casos trata-se de uma burla massiva. Por isso, não pague e não responda. Aconselhamos a mudar as passwords e a ativar o 2FA, ou seja, a verificação em dois passos. Se existirem ameaças reais com imagens suas, guarde as provas e contacte as autoridades.
Porque é que o email mostra a minha palavra-passe?
Muito provavelmente, isso está a acontecer porque o seu email e respetivo acesso esteve envolvido numa fuga de dados de outro serviço, que circula na Internet. Isso não prova que o seu computador foi invadido, mas é um bom motivo para mudar essa palavra-passe em todos os sítios onde a utilizaou.
Como sei que um site é falso?
Para validar se um site é falso, faça a verificação do domínio, ou seja, do endereço desse site, letra a letra, escreva-o no browser em vez de usar as ligações recebidas, desconfie sempre de pedidos com urgência e de pedidos de dados, e consulte o WHOIS para ver a data de registo. O cadeado (HTTPS) não garante que o site seja de confiança.
O que acontece se o meu domínio .pt expirar?
Segundo as regras do .PT, existe um período adicional de 30 dias para renovar, com um valor adicional, durante o qual o domínio deixa de estar ativo. Se não for renovado, é removido e fica disponível para registo por qualquer pessoa.
O que são o SPF, o DKIM e o DMARC?
O SPF, o DKIM e o DMARC dizem respeito a registos do domínio que permitem aos servidores de email a verificar se as mensagens foram efetivamente enviadas por quem diz ter enviado. O SPF lista os servidores autorizados, o DKIM assina as mensagens e o DMARC define o que fazer quando as verificações falham. Reduzem o risco de falsificação, mas não o eliminam.
Registar variantes do meu domínio protege a minha marca?
O registo de variantes do seu domínio ajuda a reduzir o risco de terceiros utilizando nomes parecidos contra os seus clientes. Não impede todos os casos, porque há muitas variantes possíveis, mas, pelo menos, cobre as mais óbvias.
A quem devo denunciar uma burla por email?
À Polícia Judiciária, ao CNCS, ao seu banco (se envolver contas ou cartões) e à entidade que foi imitada. Consulte sempre os contactos atualizados nos sites oficiais.
Proteja o seu nome na Internet
As burlas por email não vão desaparecer,no entanto, existem algumas ações que pode levar a cabo para tornar a vida mais difícil a quem as tenta. Mantenha o seu domínio sempre renovado, com os dados atualizados, proteja as variantes mais importantes do seu nome e use um alojamento com os cuidados básicos de segurança.
Se tem uma marca, um negócio ou um projeto, comece por garantir o seu nome:
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